Ser humano, medicina e existência: entre viver, cuidar e morrer com dignidade
O médico Acary Bulle de Oliveira cita a Fábula de Higino, atribuída ao escritor latino Caio Júlio Higino, como uma narrativa simbólica sobre a origem do ser humano. Cuidado, cansado da monotonia de não fazer nada naquele lugar chamado paraíso, tomou barro, lama e terra e deu forma a uma criatura. Ao admirar sua obra, recebeu a visita de Júpiter, o deus criador, que identificou algo que faltava. Inspirado, insuflou nas narinas da criatura o hálito do espírito, transformando o barro em vida. Surgiu, então, um impasse sobre quem teria o direito de nomeá-la. Cuidado reivindicava a criação, Júpiter exigia que ela recebesse seu nome, e Gaia, deusa da Terra, lembrava que a matéria original vinha dela.
Na narrativa, Crônus, o deus do tempo, foi chamado para resolver a disputa. Decidiu que, após a morte, o corpo retornaria a Gaia, de onde viera, enquanto o espírito voltaria a Júpiter. Cuidado, por sua vez, teria a responsabilidade de acompanhar a criatura durante toda a sua existência. Feita do húmus, a parte mais rica da Terra, ela receberia o nome de humano. A fábula oferece uma reflexão sobre a condição humana: cuidar e permitir-se ser cuidado, com humildade, são dimensões inseparáveis da existência. Cuidar é um ato de amor, capaz de reconhecer o outro e acolher sua vulnerabilidade. Na saúde, essa compreensão ultrapassa a dimensão técnica e reafirma o cuidado como essência da prática médica.
Segundo Fabrício Diniz de Lima, neurologista, o conceito de saúde formulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1948, define como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Essa compreensão foi ampliada a partir da 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, quando se consolidou o entendimento de que a saúde não é um estado abstrato ou exclusivamente individual, mas também resulta das condições de vida e da organização social. A perspectiva amplia a responsabilidade da medicina, que precisa considerar não apenas a enfermidade, mas as circunstâncias em que cada pessoa vive e enfrenta o adoecimento.
Para Marco Orsini, neurologista e coordenador do Centro de Estudos do Niterói D’Or, o equilíbrio mental é parte inseparável de toda e qualquer doença orgânica. O corpo adoece, mas não adoece sozinho. Quando uma enfermidade atravessa o organismo, também atravessa a história, os afetos, os projetos e a percepção que o indivíduo possui de si mesmo. A doença modifica o corpo, mas também transforma a relação do ser humano com o tempo, com os outros e com sua própria finitude. Talvez a medicina contemporânea esteja finalmente compreendendo aquilo que a filosofia e a psicanálise já intuíram há muito tempo: não existe órgão isolado de uma pessoa, assim como não existe pessoa completamente separada de seu corpo.
Wladimir Bocca observa que a medicina atual alcançou uma capacidade extraordinária de diagnosticar, monitorar e tratar doenças. Genômica, inteligência artificial, neuroimagem, imunoterapia, terapias-alvo, medicina de precisão e biomarcadores transformaram radicalmente a capacidade de intervir sobre processos antes considerados inevitáveis. Entretanto, quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, mais evidente fica uma questão fundamental: tratar mecanismos biológicos não significa necessariamente cuidar de toda a experiência humana de adoecer. O avanço científico amplia as possibilidades terapêuticas, mas também exige uma reflexão sobre a maneira como a pessoa é acolhida durante o tratamento.
Acary Bulle de Oliveira e Marco Orsini destacam que a própria neurociência contemporânea demonstra como cérebro, corpo e ambiente mantêm uma comunicação permanente. Estresse, sono, dor, atividade física, relações sociais, percepção de segurança e estados emocionais influenciam circuitos neuroendócrinos, autonômicos e imunológicos. Isso não significa que pensamentos sejam capazes de simplesmente curar câncer, doenças neurodegenerativas ou insuficiências orgânicas. Significa algo mais sério: a experiência subjetiva participa da maneira como o organismo responde, adapta-se e convive com a doença. Reconhecer essa interação não substitui o tratamento médico; amplia a compreensão sobre as necessidades de cada paciente.
Acary também recorre à psicanálise para compreender as dimensões do sofrimento que nem sempre são percebidas conscientemente. Sigmund Freud já havia identificado a participação do inconsciente nos medos, desejos, conflitos e mecanismos de enfrentamento. Diante de uma doença grave, o diagnóstico não é apenas uma informação médica: ele passa a integrar a narrativa do sujeito. O paciente pode deixar de dizer “eu tenho uma doença” e começar a pensar “eu sou a doença”. Uma das tarefas da medicina humanizada é impedir que o diagnóstico colonize completamente a identidade, preservando a história, os vínculos e as possibilidades de existência que continuam presentes apesar da enfermidade.
Orsini encontra em Friedrich Nietzsche uma reflexão sobre o que fazemos com aquilo que a vida nos impõe. Não se trata de glorificar o sofrimento nem de afirmar que toda adversidade produz crescimento. Algumas doenças são injustas, algumas dores parecem absurdas e algumas perdas não possuem explicação. Ainda assim, permanece a possibilidade de construir uma relação diferente com aquilo que não escolhemos. A doença pode limitar o corpo sem necessariamente ocupar todos os espaços da existência. Essa perspectiva não nega a gravidade do adoecimento, mas reconhece que a pessoa continua sendo muito mais do que aquilo que lhe acontece.
Orsini e Acary aproximam essa discussão do pensamento de Søren Kierkegaard, para quem a angústia está profundamente ligada à possibilidade e à liberdade. Um diagnóstico grave frequentemente devolve o indivíduo a essa condição. O futuro, que antes parecia uma continuidade quase automática, torna-se incerto. A pessoa passa a perguntar quanto tempo tem, o que poderá fazer, quem permanecerá ao seu lado e o que ainda poderá realizar. A medicina consegue responder a algumas dessas perguntas por meio da ciência e da experiência clínica; outras pertencem à filosofia da existência e à maneira singular como cada indivíduo enfrenta a incerteza.
Fabrício Diniz de Lima encontra em Baruch Spinoza uma contribuição igualmente atual. Ao pensar corpo e mente como dimensões de uma mesma realidade, o filósofo oferece uma perspectiva que dialoga com a integração biopsicossocial adotada pela medicina contemporânea. O organismo não é apenas uma soma de órgãos, mas um sistema dinâmico, atravessado por experiências, relações, hábitos, emoções e circunstâncias ambientais. Essa compreensão reforça a importância de avaliar o paciente de maneira integral, sem reduzir sua condição a exames, sintomas ou alterações fisiológicas.
Segundo Orsini, Maurice Merleau-Ponty radicaliza essa percepção ao afirmar que não simplesmente possuímos um corpo: somos corpo. É através dele que tocamos o mundo, percebemos o outro, trabalhamos, amamos e construímos nossa identidade. Por isso, uma doença não representa apenas uma alteração anatômica ou fisiológica. Ela pode modificar a maneira como o indivíduo habita o próprio mundo, realiza atividades cotidianas e se reconhece diante das pessoas que fazem parte de sua história. Cuidar, nesse contexto, também significa compreender o impacto da enfermidade sobre a experiência de existir.
Acary ressalta que a psicanálise contemporânea ajuda a compreender por que a escuta integra o tratamento. Donald Winnicott enfatizou a importância de um ambiente suficientemente seguro; Wilfred Bion, a necessidade de transformar experiências emocionais difíceis em algo que possa ser pensado; e Sándor Ferenczi, a relevância de uma escuta sensível diante do trauma. A medicina moderna dispõe de aparelhos cada vez mais sofisticados para enxergar o corpo, mas nenhuma tecnologia substitui completamente a capacidade de escutar uma pessoa. O acolhimento não é um adorno da assistência: é parte da relação que permite ao paciente expressar medos, dúvidas e necessidades.
Wladimir Bocca e Marco Orsini acrescentam que a neurociência oferece outra dimensão importante para essa discussão: a plasticidade cerebral. Experiências, aprendizagem, exercício físico, sono, relações sociais e reabilitação podem modificar circuitos neurais ao longo da vida. Essa plasticidade não representa uma promessa de cura universal, mas demonstra que o sistema nervoso possui capacidade de adaptação. Em doenças neurológicas e psiquiátricas, assim como nos processos de reabilitação, essa característica se tornou um dos fundamentos da medicina contemporânea, favorecendo estratégias individualizadas e objetivos terapêuticos compatíveis com as condições de cada paciente.
Acary e Fabrício destacam que o exercício físico deixou de ser compreendido apenas como uma recomendação para melhorar músculos e condicionamento cardiovascular. Hoje, é reconhecido como uma intervenção capaz de influenciar cognição, humor, sono, metabolismo e plasticidade cerebral. Da mesma maneira, a qualidade do sono, a redução do isolamento social e o tratamento adequado de transtornos depressivos e ansiosos passaram a integrar estratégias de cuidado de diversas doenças crônicas. A medicina não afirma que a mente substitui o tratamento biológico; reconhece que o ser humano responde ao tratamento como um todo e que diferentes dimensões da saúde precisam ser consideradas.
Orsini e Acary encontram em Hannah Arendt uma reflexão sobre a capacidade humana de iniciar algo novo. Mesmo diante de uma doença, a existência não precisa ficar completamente aprisionada ao passado. Um novo tratamento, uma rotina adaptada, uma relação reconstruída ou uma nova maneira de viver o presente podem representar formas de recomeço. A esperança, nesse sentido, não precisa significar exclusivamente a expectativa de cura. Pode ser a possibilidade de encontrar significado, preservar vínculos e construir experiências que continuem fazendo sentido, mesmo quando a realidade impõe limites difíceis de superar.
Acary aproxima essa reflexão de Albert Camus e de sua abordagem do absurdo. Há situações em que perguntar “por quê?” não produz resposta. A doença grave pode ser uma dessas experiências. A medicina consegue explicar mecanismos, estatísticas, prognósticos e possibilidades terapêuticas, mas nem sempre pode responder por que determinada pessoa foi atingida. Reconhecer essa fronteira não representa uma derrota da ciência. Significa compreender que o conhecimento médico pode explicar muito sobre a enfermidade sem esgotar o significado do sofrimento para quem adoece.
É nesse ponto que os autores situam os cuidados paliativos e a medicina centrada na pessoa. Quando a cura deixa de ser possível, o cuidado não termina. Controle da dor, tratamento de sintomas, apoio psicológico, comunicação honesta, participação da família, autonomia e decisões compartilhadas tornam-se partes centrais da assistência. Curar e cuidar são verbos diferentes. Compreender essa diferença não diminui a medicina; ao contrário, revela sua maturidade e sua capacidade de reconhecer que a dignidade do paciente não depende da possibilidade de eliminar a doença.
Acary recorre a Viktor Frankl para estabelecer uma ponte entre medicina e filosofia. O psiquiatra e neurologista austríaco refletiu sobre a possibilidade de o ser humano continuar procurando significado mesmo diante de circunstâncias que não consegue modificar. Isso não significa romantizar o sofrimento, responsabilizar o paciente por sua doença ou transformar a esperança em obrigação. Significa reconhecer que, mesmo quando a medicina não consegue alterar o curso biológico de uma enfermidade, ainda pode ajudar a preservar algo fundamental: a dignidade de quem vive essa experiência.
Orsini e Wladimir Bocca propõem, diante de uma doença terminal, uma mudança de perspectiva. A pergunta mais profunda talvez não seja apenas “quanto tempo ainda podemos acrescentar à vida?”, mas também “quanta vida podemos acrescentar ao tempo?”. Essa mudança transforma o conceito de cuidado. Um dia sem dor, uma conversa com um filho, a presença de quem se ama, uma reconciliação, uma música, um amanhecer ou simplesmente a possibilidade de decidir sobre o próprio cotidiano podem adquirir um valor que nenhum marcador laboratorial consegue medir. A qualidade de vida, nesse cenário, deixa de ser uma expressão abstrata e passa a representar necessidades, escolhas e experiências concretas.
No limite, a grande conquista da medicina contemporânea talvez não seja apenas conseguir prolongar a vida, mas aprender a cuidar melhor daquilo que a torna humana. A tecnologia continuará avançando, os diagnósticos serão cada vez mais precisos e os tratamentos, cada vez mais personalizados. Mas nenhuma inteligência artificial substituirá completamente a presença; nenhum biomarcador medirá integralmente o significado de uma vida; nenhum algoritmo compreenderá sozinho a singularidade de uma perda. A ciência pode ampliar as possibilidades de intervenção, mas a relação entre médico e paciente continuará exigindo responsabilidade, sensibilidade e respeito à individualidade.
Por fim, os autores convergem para uma mesma compreensão: o corpo pode adoecer, o cérebro pode sofrer e a doença pode impor limites reais e, algumas vezes, irreversíveis. Ainda assim, a pessoa permanece maior que seu diagnóstico. Entre a biologia e a existência há um território imenso chamado humanidade. É ali que habitam a memória, o desejo, o vínculo, a esperança, a liberdade possível e a dignidade. Talvez seja exatamente nesse território que a medicina do futuro precise aprender a atuar: não apenas para acrescentar anos à vida, mas para proteger a vida que existe dentro desses anos.
Que sejamos seres humanos.